Leon Kossovitch

 Oscar D'Ambrosio

 Evandro Carlos Jardim

 Antonio Gonçalves Filho

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CONVERSA

LEON KOSSOVITCH - O lançamento de sua tese como
livro é um sinal auspicioso para uma discussão da gravura no Brasil. Diferentemente da Europa, o Brasil ainda é
um país em que a gravura ocupa as pessoas, embora não
tenha uma circulação ampla. Uma das questões levantadas pela gravura incide nos debates artísticos gerais, pois,
ultimamente, temos sido dominados por um encaminhamento pouco interessante, o de uma arte sem conceitos: a arte que se proclama conceitual é, sem paradoxo, uma arte desprovida de conceitos. Ligada a essa arte conceitual, temos uma arte também irrelevante, que é o minimalismo, as diversas modalidades minimalistas. Esse minimalismo valoriza, na gravura, principalmente na calcogravura, a incisão como tal, que se torna um fim em si mesmo.
A sua gravura, Jacqueline, é parcimoniosa nos recursos,
mas em nenhum momento essa parcimônia aponta para
o conceitual ou para o minimalismo, pois faz pensar uma
dimensão lírica. Consideremos as gravuras dessa tese: relativamente ao seu mestrado, no qual predomina a aplicação a alguns objetos afetivos, como o coração ou os astros, as deste álbum apresentam uma circulação mais ampla,com abertura para a paisagem. Vários elementos são nele tratados com muita leveza, propondo-se a dimensão lírica que é pouco valorizada pelas artes plásticas atuais. A nossa contemporaneidade praticamente esvaziou o lirismo, a
um tempo delicado e incisivo da figuração.

JACQUELINE ARONIS - A gravura é fundamental para
mim porque apresenta inúmeras possibilidades de elaboração da imagem. Penso o ateliê como um lugar de encontro
onde a gravura propõe uma coisa mais complexa do que o
fazer isolado. É da confluência no complexo que decorre a
reflexão. Por isso, vejo a gravura como reflexão e não como
reprodução, a qual também pode ser interessante sob outros aspectos. Noto que muitos artistas no Brasil se dedicam à
gravura, o que evidencia uma qualidade que, talvez, na Europa e nos Estados Unidos não se encontre mais, pois lá definhou, tendo ficado ligada ao tecnicismo. No que concerne
à história, penso que houve no Brasil grandes gravadores,
que a nossa tradição em artes plásticas produziu excelentes
gravadores, o que traz consistência para a gravura. Exemplo do que digo é Evandro Carlos Jardim, meu professor na
Universidade, que faz gravura e a divulga de uma maneira
muito instigante, sempre agregando pessoas à sua volta.

LEON - Você traz um depoimento fundamental, pois chama atenção para a contribuição dos que nos precederam
no século XX. Eles deram uma contribuição tão decisiva,
que marcaram um território para a atuação dos gravadores. Mas, ao mesmo tempo, noto que os professores mais
recentes, descendentes de Friedlaender e Hayter, insistiram muito na técnica, no ofício da gravura. Já em você
prevalece o processo imaginativo: a dimensão onírica que
você traz, e que eu acho insubstituível, é uma contribuição singular sua. Que não se deve escamoteá-lo é certo,
porque talvez tenhamos perdido parte da imaginação com
a insistência na técnica. É certo que os artistas devem ensinar a técnica, mas sem omitir as demais dimensões artísticas. No seu caso, essa pegada onírica me tem mantido
desperto em relação à sua obra. Sei que é difícil falar sobre
essas questões, mas talvez você possa dizer algo, porque
isso transcende a discussão do ofício.

JACQUELINE - O conhecimento técnico é importante,
porém é necessário não perder de vista o que se quer dizer.
Para mim, o sonho funciona como um lugar de geração de
imagens; quando estou envolvida com o que estou produzindo ou, mesmo quando não estou fazendo gravura, elaboro imagens, e os sonhos me trazem de uma maneira plena indagações que têm a nitidez dos procedimentos plásticos. Meus sonhos são muito coloridos e criam panoramas, paisagens, objetos. Isso desde criança: aprendi a ter intimidade com meus sonhos e , para mim, é como uma conversa que mantenho comigo mesma. Muitas vezes, estou fazendo uma gravura ou um desenho, vou dormir, eu continuo no sonho e aí acordo. Ou, ao contrário, às vezes eu sonho alguma coisa, o que pode me levar a buscar um encontro na realidade com o sonhado. Do sonho o que fica não é apenas a imagem, mas o sentimento que a acompanha.

LEON - E você poderia pensar um efeito inverso, as imagens
de uma gravura, de um desenho, a interferir em seu sonho?

JACQUELINE - Sim, isso é recorrente. Tive um sonho, o
de estar fazendo gravura, por exemplo, a do Rio de Janeiro. Nesse sonho surge o carioca Cheng, meu professor chinês de I Ching, que tinha falecido recentemente. Eu, surpresa, pergunto-lhe: "Que é que você faz aí se morreu?" Ele replica: "Vim te ver e vejo essa linha, vejo como ela é
consistente porque eu consigo ficar equilibrado em cima
dela sem cair". Dito isto, desliza pela linha até encontrar
o horizonte e nele desaparece.

LEON - O seu trabalho é, principalmente, um trabalho
de linha. O que a linha tem a ver com o sonho? Essa escolha da linha é tão poderosa que já desempenha um papel
relevante nas gravuras do mestrado.

JACQUELINE - A linha pode estar em qualquer dimensão;
no sonho ela aparece mais evidente ainda, porque associada
às do I Ching. Para mim ela está ligada à escrita e a escritura
também é desenho, um meio elástico. A linha na gravura,
muitos não o imaginam, é graficamente tridimensional.

LEON - Então, a gente poderia dizer que você escreve
sonhos, mas que você também escreve ao descrever paisagens. Estas árvores: eu não as vejo como signos, mas como entrelaço de linhas. Eu as vejo como desenho puro, sem redução ao signo. Essa parcimônia no uso da linha, que
realiza tudo o que tem de ser feito, não é apenas um registro sígnico, é algo graficamente real. Você não acha que é
possível distinguir entre uma linha que não é escritural e
uma linha que é escritural?

JACQUELINE - Sim, eu acho que sim. Há muitos momentos num trabalho. Acho que a linha tem pelo menos duas potencialidades.

LEON - Duas potencialidades da linha, isso é interessante, porque não dá para descartar nenhuma das duas.

JACQUELINE - Nem uma nem outra. Porque esse potencial entre ambas é a dinâmica. No meu trabalho, a potencialidade da linha decorre da nitidez da gravação. Desde muito cedo, a minha gravação se opunha à gravura que ocupava todo o campo da matriz, com muita água-tinta,com muita matéria, com muita cozinha. Nesses anos setenta, estava na moda a frottage, o pegar a textura das coisas. Nada disso me atraiu, como se nota no percurso do meu trabalho. A possibilidade de trabalhar as qualidades das linhas é o que me interessa: prefiro o nítido à construção da imagem como aparato sobrecarregado. Gosto de ver a figura surgir na matriz e depois na estampa, em diálogo constante.

LEON - Você não faz alarde do instrumento: quando olho
o seu trabalho, vejo o que está figurado, depois, que é uma
água-forte, que é um buril, que é uma ponta-seca. Este é
um signo da diferença do seu trabalho em relação a muitos
trabalhos que conheço, pois você não cobra o conhecimento dos procedimentos do espectador.

JACQUELINE - Talvez isso ocorra porque a gravura também é um desenho, uma maneira de desenhar.

LEON - Quase um anátema: gravar como desenhar. Por
que não? Também há os que não pensam assim.

JACQUELINE - Os procedimentos técnicos me inspiram
e são um apoio para refletir enquanto executo a gravura.
Meu imaginário requer que eu passe pelos procedimentos, entendidos como doadores de ritmos, como também de timbres, pois os instrumentos oferecem resistências diferenciadas, estabelecendo limites que são portadores de
sentimentos e percepções. Os tempos dos procedimentos
também são os da produção da imagem.

LEON - Na gravura das linhas, qual é o procedimento
que mais a atrai, a água-forte?

JACQUELINE - Houve um tempo em que eu só gravei
com a ponta-seca. E agora, olhando para trás, minha filha era então bebê, acho que a ponta-seca foi uma defesa contra a exposição aos ácidos e vernizes. Então, nesse momento, eu fui muito produtiva em ponta-seca, mas também em buril, roulette e berceau. Quando concluí o mestrado, passei a pesquisar a água-forte, porque, diferentemente do buril, ligado à escultura, ela se aproxima ao desenho. A água-forte tem, no meu trabalho, mais fluidez do que o buril, mas também mais profundidade, pois permite redimensionar os sulcos. Eu fui me preparando, assim, de todas as maneiras para caminhar na água-forte, e de fato mergulhei na água-forte.

LEON - Mergulhar na água-forte: você se protegeu tanto
que acabou mergulhando nela.

JACQUELINE - Isso foi inevitável. A água-forte me torna mais livre no gesto de gravar do que o buril. Talvez seja por isso que os artistas tenham se aproximado da gravura: é o tempo que encanta na água-forte. Penso em Seghers, Piranesi, Méryon, em paisagens inventivas. A água-forte é muito aberta e, nesse sentido, nada a substitui.

LEON - Você buscou fazer uma obra de mais provas, não é?

JACQUELINE - Não só isso, com mais recursos também,
devido à diversificação das linhas. Descobri que na água-
forte eu tinha um potencial. É claro que também o buril é
uma linguagem à parte, como o é a ponta-seca. No sonho,
não só surge a imagem, mas tudo o que envolve sua execução. Eu trago um sonho em manuscrito deste livro, em
que estou afiando um buril. Vou iniciar o trabalho com ele, acrescentando depois a água-forte. Todas as linhas vão se somando, construindo a imagem de um coração que se expande no campo da matriz, do papel, de todo o ateliê. De repente, paro para olhar a gravura e a gravura começa a me olhar. E não é só a gravura do coração que me olha, mas todas as gravuras já feitas passam a fazê-lo. E aí acordo.

LEON - Ah! É a gravura, o universal a olhá-la.

JACQUELINE - O coração ocupa todo o espaço. O coração também é metáfora.

LEON - Você propõe uma experiência que foi recalcada
pelo tecnicismo, pela desistência que assedia a arte, a gravura em particular. O coração ocupa todo o espaço. Ele
não deixa brecha para nada mais, sendo metafórico como
você diz. Esse coração intensíssimo não tem contorno,
ele é pura pulsação. E a encara: esse afrontamento opera
como captura. Ele é pura captura, ele deixa de ser uma
figura para ser um olhar absoluto. Você passa uma experiência rara de transmutação da visão em olhar. O coração que você grava no sonho se intensifica a ponto de se tornar uma outra experiência. Não conheço experiência
semelhante. Penso que esse coração que cresce em todos os sentidos espaciais se reduz ao ponto de uma pulsação que, fitando-nos, devolve-nos para a questão da posição atual da gravura. Eu me pergunto se não podemos partir dessa experiência de fronteira, da fronteira do que é superável, do que vai além do gravar, do ser visto, para tornar-se um olhar que nos grava: esta divisa não definiria uma posição privilegiada para considerar nossa contemporaneidade, em que a experiência do estranho não cabe mais? Eu considero esse estranhamento uma possibilidade que sua gravura propõe, Jacqueline, contra esse universo homogêneo, chato, da arte dita ?contemporânea?.

JACQUELINE - Acho que essa experiência orienta a
obra, pois produz um sentimento de presença e conexão.

LEON - O seu trabalho questiona justamente essa dimensão ascética da Pop Art, do mote publicitário, do trocadilho fácil que sempre se autoriza; o sonho que você narra permite imaginar uma outra experiência, a da fronteira. Na desistência atual, o espaço da bienal é como o do supermercado, é o tédio contínuo, uma experiência de morte, pois nada interpela as pessoas.

JACQUELINE - Eu percebo que a questão que incide
na arte contemporânea não é a das dimensões poéticas
da arte, mas a do apaziguamento: medo de errar, como se
houvesse ameaça à ordem estabelecida. A experiência não
está em pauta, o que está na pauta é o assertivo, o correto.
Para mim, a experiência da arte como poética é uma experiência de risco total.

LEON - E o risco é o que não se quer correr, pois tudo
vem emoldurado por paredes de algodão doce.

JACQUELINE - Pois é.

LEON - Como você vê o resultado da leveza do seu trabalho, em tudo distante do ascetismo?

JACQUELINE - Acho que o lírico traduz bem essa leveza, essa rapidez que não é superficial, que também não
é resumida. O máximo possível ou o mínimo possível: o
indizível é o limite da minha gravura.

LEON - É nesse sentido que você pode pôr na sua gravura
o comum, o qual não tem, entretanto, uma carga prévia.

JACQUELINE - Interessa o que está à volta. A paisagem
é interessante porque é passagem. Eu tenho estado muito
conectada com os elementos da paisagem, não só da paisagem como conjunto, mas com os elementos que fornecem contorno, mapeamento, transição pelo espaço, como também com as conexões do tempo e do espaço. A cor que entra na gravura cria uma atmosfera, quase uma estação, porque é uma atmosfera ou de primavera ou de alegria ou de melancolia ou de outono.

LEON - Então, sua linha não é uma linha asséptica, sem
singularidades, nem é intensíssima como pico. Ela produz
outra espécie de intensidade, uma intensidade modulada.

JACQUELINE - Agrada-me pensar que o trabalho possa
estar concentrado, diferente do que é a distração continuada, na qual estamos imersos, como também do tédio,
que é estático. O tempo do lirismo é sutil; nele reside uma
possibilidade de abertura da percepção.

LEON KOSSOVITCH
JACQUELINE ARONIS
São Paulo, Abril de 2010